Ler para assistir. Ou assistir para ler
Quando um livro vira filme, parece que as pessoas se dividem: há quem defenda o original com afinco, quem só tenha visto o filme (e ache que basta), e quem compare as duas obras com a precisão de um árbitro. Tem também aquele conhecido que, ao final da sessão, comenta “na minha imaginação, o personagem era outro” — reforçando como a experiência de leitura é íntima, pessoal, quase artesanal.
De um lado, a expectativa de que adaptações cinematográficas sejam retratos fiéis de suas obras literárias originárias — e qualquer desvio é lido como traição. De outro, a defesa de que o cinema, por ser uma linguagem independente, tem o direito de criar algo quase inteiramente novo. E entre a fidelidade absoluta e a liberdade criativa, existe ainda um dilema mais sutil: se cada leitor inventa sua própria versão da história ao ler um livro, qual dessas infinitas versões mereceria chegar às telas? E com qual grau de recriação?
A curiosidade por esta dinâmica, somada à importância do tema do envelhecimento, motivou a escolha das obras na edição de novembro do Conversa em Cena: Ainda Estou Aqui e Vitória. Ambos os filmes nasceram de livros baseados em histórias reais com densidades difíceis de ignorar.
No primeiro, Marcelo Rubens Paiva reconstrói a história de sua família atravessada pela ditadura e pela perda. Entre o pai desaparecido e a mãe tomada pelo Alzheimer, o autor transforma o trauma em narrativa, fazendo da memória — fragmentada, não linear — o eixo do livro. Alternando passado e presente, relato íntimo e testemunho histórico, o filho escreve para entender, o homem investiga para recordar, o escritor transforma o trauma em linguagem.
Em Dona Joana da Paz (2024), Fábio Gusmão acompanha a trajetória de uma mulher comum em meio à violência urbana e às engrenagens do crime. A escrita, que mistura reportagem, documentos e cenas reconstruídas, dá ao livro uma força particular: Joana emerge como alguém que não recua, não silencia, não desiste. O vai e vem entre a história pessoal de Joana e o contexto social mais amplo cria uma obra de múltiplas camadas.
Vitória e Ainda Estou Aqui encontram nova forma no cinema, onde a experiência se torna visual, sonora, coletiva — ampliando o alcance das histórias e, ao mesmo tempo, transformando algo delas. Essa passagem entre linguagens já é, por si só, extraordinária. É ainda mais significativo que, no centro das narrativas, estejam mulheres maduras enfrentando silenciamentos e estruturas de poder, interpretadas pelas gigantes Fernanda Torres e Fernanda Montenegro.
Baixe o material de leitura de apoio que inspirou esse encontro e assista à conversa na íntegra.

No fundo, cinema e literatura não competem; conversam. Especialmente quando se trata de relatos testemunhais — memórias reais convertidas em narrativa — essa triangulação entre literatura, cinema e envelhecimento mostra sua força. A vivência vira texto e o texto vira imagem. E, nesse movimento, o que poderia se perder permanece — não como registro distante, mas como experiência compartilhada.
Talvez o mais interessante não seja decidir qual meio “funciona melhor”, mas perceber como cada um amplia a experiência do outro. Leitores e espectadores vivem experiências necessariamente diferentes — e é nesse espaço que a arte acontece. No final, cinema e literatura criam caminhos distintos — e igualmente valiosos — para que essas histórias continuem vivas.
A nós, cabe ler e assistir. Ou vice-versa.
Este texto compartilha e inspira ideias do cineasta Cacau Rodhen e da pesquisadora Marilia Duque especialistas e convidados do Conversa em Cena.
Sobre os livros citados e outros que viraram filmes (adoramos)!
(resenhas extraídas das contra-capas)
Ainda Estou Aqui
Eunice Paiva é uma mulher de muitas vidas. Casada com o deputado Rubens Paiva, esteve ao seu lado quando foi cassado e exilado, em 1964. Mãe de cinco filhos, passou a criá-los sozinha quando, em 1971, o marido foi preso por agentes da ditadura, a seguir torturado e morto. Em meio à dor, ela se reinventou. Voltou a estudar, tornou-se advogada, defensora dos direitos indígenas. Nunca chorou na frente das câmeras.
Ao falar de Eunice, e de sua última luta, desta vez contra o Alzheimer, Marcelo Rubens Paiva fala também da memória, da infância e do filho. E mergulha num momento obscuro da história recente brasileira para contar e tentar entender o que de fato ocorreu com Rubens Paiva, seu pai, naquele janeiro de 1971.
Dona Joana da Paz
Revelada pela primeira vez em 2005 em uma matéria de Fábio Gusmão, a história de Dona Vitória tornou-se uma das mais marcantes e de maior repercussão da mídia nacional no início dos anos 2000. A senhora que, aos 80 anos, da janela de sua casa em Copacabana, no Rio de Janeiro, com uma câmera apoiada em livros e listas telefônicas, filmou toda a movimentação do tráfico e a negligência policial.
A coragem misturada ao cansaço e a insatisfação pela situação de descaso das autoridades foram as motivações de Dona Vitória para continuar com a câmera na janela mesmo quando notava armas e binóculos apontados em sua direção.
Com uma história de vida intensa desde os primeiros anos, esta nova edição, agora Dona Vitória Joana da Paz , revela quem era a mulher por trás do nome atribuído pelo Programa de Proteção à Testemunha, atravessando seus anos formativos, os anos gravando a vista da janela e o longo período de exílio. Nestas páginas, Fábio Gusmão nos (re)apresenta, com imagens exclusivas das últimas semanas de gravações, ao lado de transcrições de falas completas de Dona Vitória, novos detalhes e revelações sobre a heroína por trás da câmera que mudou a história de um bairro, marcou um país inteiro e mostrou na pele como o exercício da cidadania é a mais potente arma contra a impunidade, a corrupção e a desesperança que assolam o país.
O Nome da Rosa
(dica de um espectador da Conversa em Cena!)
No primeiro romance de Umberto Eco, o autor utiliza um roteiro policial, no estilo de Conan Doyle, que se desenvolve na última semana de novembro de 1327, em um mosteiro franciscano da Itália medieval.
Neste mosteiro, paira a suspeita de heresia, e para a investigação, é enviado o frei Guilherme de Baskerville.
Porém a delicada missão é interrompida por sete excêntricos assassinatos. A morte, em circunstâncias insólitas, de sete monges em sete dias e noites guia uma narrativa violenta, que encanta pelo seu caráter de humor e crueldade, malícia e sedução erótica.
Esses crimes fazem frei Guilherme atuar como um detetive. Ele busca prova, decifra símbolos secretos e manuscritos em códigos e trabalha arduamente no misterioso labirinto do mosteiro onde eventos extraordinários ocorrem durante a madrugada.
Um espetacular sucesso, O nome da rosa não é apenas uma narrativa de investigação de crimes, mas também uma fascinante crônica sobre a Idade Média.
Harry Potter
A série Harry Potter, de J.K. Rowling, acompanha a trajetória de um jovem bruxo que, ao descobrir sua verdadeira origem, é conduzido a um mundo até então invisível aos seus olhos: o universo da magia. Entrelaçando fantasia, aventura e temas universais, os sete volumes narram a formação de Harry e de seus amigos, Hermione Granger e Ron Weasley, enquanto enfrentam desafios que vão muito além das paredes da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.
Marcado pela herança de um passado trágico e pela ameaça constante do bruxo das trevas Lord Voldemort, Harry percorre um caminho de autoconhecimento, coragem e responsabilidade. A cada livro, a história se aprofunda, revelando camadas emocionais, políticas e morais que consolidaram a saga como um dos maiores fenômenos literários contemporâneos.
Mais do que uma narrativa de magia, Harry Potter é uma jornada de amadurecimento e amizade, que continua a cativar leitores de todas as idades em todo o mundo.






