Entre querer e fazer
Quando ouvi a autora e empresária Arianna Huffington falar sobre a eficácia de micro passos como forma de criar hábitos e mudar comportamento, minha ficha caiu.
Até então, eu baseava minhas resoluções de ano — literárias ou não — na teoria dos objetivos SMART¹, segundo a qual uma meta precisa ser específica, mensurável, atingível, relevante e ter prazo definido. Um avanço claro para quem começava janeiro com uma intenção disfarçada de meta (ler mais, fazer mais atividade física, aprender algo novo), e, alguns janeiros depois, estabelecia algo mais concreto (ler 30 livros por ano, fazer musculação 3 vezes por semana, aprender italiano). Ainda assim, o desafio da execução. Como — e quando — incorporar um hábito, como o da leitura, no corre-corre da vida?
Faltava viver a jornada, não apenas imaginar o destino.
Um dos exemplos que Huffington costuma usar é o de pessoas que desejavam meditar diariamente, mas nunca conseguiam sustentar o hábito. A sugestão? Não começar com 20 minutos por dia. Começar com um único minuto. Um minuto tão pequeno que não gera resistência, não exige negociação interna, não assusta. Em vez de metas grandes, passos pequenos. A proposta de Huffington faz mais do que sentido na vida: ela cabe na agenda.
Segundo a autora, a repetição diária, ainda que mínima, altera a percepção de si mesmo — de alguém que “quer” para alguém que “faz”. “Cada passo minúsculo é um passo em direção a uma vida que realmente vale a pena ser vivida”, escreve ela. É a passagem do campo da intenção para o da ação.
Estipular um tempo e um momento diários para a leitura — ainda que poucos minutos antes de dormir, um poema ao acordar ou um conto lido em uma única sentada — foi, para mim, mais transformador do que alcançar qualquer meta grandiosa. Não porque o objetivo final tenha se concretizado, mas porque o caminho deixou de ser um obstáculo assustador.
Essa lógica dos pequenos passos se confirma no Conversa em Prosa, a comunidade de leitura do Literat, que em março inicia seu 9º ciclo. A escolha do conto como texto central é decisiva: ele cabe na pressa da vida e, ainda assim, preserva a experiência profundamente humanizadora da literatura. Já na nossa primeira leitura, em 2017, com O Espelho, de Machado de Assis, constatamos na prática a verdade de Anton Tchékhov: “a brevidade é irmã do talento”. Ao final de cada ciclo, nos deparamos com a realização de ter lido e entrado em contato com oito, nove ou dez textos literários de qualidade e profundidade. Não por disciplina rígida ou metas grandiosas, mas pela constância de pequenas mudanças.
No fundo, para nós, leitores mortais, a realidade é simples: se o livro inteiro intimida o “eu termino”, o conto acolhe o “eu consigo”. E é nesse espaço possível, sustentável e humano que a leitura deixa de ser promessa e passa a ser prática entrelaçada ao estilo de vida — pela realização que veio do hábito e pela inspiração que veio da arte.
Do inglês SMART – Specific, Measurable, Achievable, Relevant e Time-bound
Sobre os textos citados:
O Espelho
por Machado de Assis
Machado de Assis (1839 – 1908) explora, em O Espelho, os limites entre aparência e essência ao narrar a história de Jacobina, que defende a existência de duas almas — uma interior e outra social — convidando o leitor a refletir sobre quem somos.
A Dama do Cachorrinho
por Anton Tchékhov
Anton Tchékhov (1860–1904) foi um escritor e dramaturgo russo, considerado um dos grandes mestres do conto moderno. Com uma escrita marcada pela concisão, sensibilidade e atenção à vida cotidiana, transformou narrativas breves em retratos profundos da condição humana. A Dama do Cachorrinho é um dos seus textos mais famosos que lemos no Ciclo 5 do Conversa em Prosa.
Your Time to Thrive
por Arianna Huffignton
Em Your Time to Thrive, Arianna Huffington propõe uma nova visão de sucesso baseada no bem-estar e no equilíbrio, destacando a teoria dos micro passos, pequenas mudanças diárias capazes de gerar grandes transformações na vida.




