Entre estar e permanecer
Estar presente e ter presença compartilham a mesma raiz. Vêm do latim praesens: estar à frente, diante de, apresentar-se.
A origem pode ser comum; o sentido, nem tanto.
Estar presente é, antes de tudo, condição. Um estado mínimo. Pode-se estar presente sem estar implicado, sem escutar, sem se oferecer ao instante. O corpo conrma o aqui; a intenção, não. A condição se cumpre, mas algo falta.
Ter presença, por outro lado, é qualidade. Um atributo intenso. Uma forma de habitar o agora que envolve densidade e atenção. Se estar presente é chegar, ter presença é permanecer. A condição abre a porta. A qualidade faz com que algo possa acontecer.
No mundo contemporâneo, marcado por modelos de trabalho híbridos e onde telas, agendas e encontros se sobrepõem, essa distinção torna-se crucial. Estar presente pode se resumir a abrir a câmera, entrar na chamada, participar de uma reunião ou simplesmente se sentar à mesa com os colegas. Mas ter presença exige mais: envolve escuta ativa, envolvimento real e cuidado com o momento compartilhado.
Essa atenção que circula entre as pessoas é um dos sustentáculos da saúde social. Sem ela, relações apenas existem, encontros apenas acontecem, e a sensação de conexão se esgota — seja atrás de uma tela, seja na mesma sala. A presença não depende do espaço físico, mas da intenção com que cada um escolhe habitar o instante.
Ter presença é, assim, um gesto de cuidado coletivo. Se estar presente mantém o sistema funcionando, ter presença mantém o humano vibrando. Entre condição e qualidade, nos resta decidir se a convivência será apenas rotina ou experiência compartilhada. Se o encontro será mais um item da agenda ou vivido em sua densidade.
Fiquei na dúvida se este texto seria o primeiro de 2026 ou o último de 2025
Se teria um tom de despedida ou de boas-vindas; de agradecimento e reconhecimento ou de planejamento e resolução. Angustiada com a ideia de que um intervalo de apenas vinte dias, nesse período entre anos, pudesse ganhar um peso quase cataclísmico — como se tudo o que não foi dito (ou, neste caso, escrito) em 2025 perdesse automaticamente seu potencial de acontecer em 2026 — recorri aos textos do Conversa em Prosa, em busca de inspiração.
Lembrei da sabedoria de Michel de Montaigne, em seu ensaio De como losofar é aprender a morrer, aos nos lembrar da importância de viver com presença, conscientemente, valorizando cada instante. E também de como Virginia Woolf, em A Marca na Parede, nos captura no instante da observação de uma simples marca na parede e revela que a verdadeira presença reside na atenção plena — no modo como o mundo e o instante são vividos de forma intensa e atenta.
No nal, pouco importa o ano que começa ou termina. Presença não obedece ao calendário. Estar presente com presença é um gesto atemporal — e talvez por isso tão urgente.
Escolher estar, de verdade, inaugura encontros, sustenta vínculos e reativa o que nos mantém humanos. Que este seja, então, menos um texto de passagem e mais um convite: a habitar o agora com intenção e cuidado.
Sobre os textos citados:
Ensaios: que Filosofar é Aprender a Morrer e Outros Ensaios por Michael de Motaigne – tradução: Julia da Rosa Simões
Aqui, losofar não é se afastar da vida – é mergulhar nela. Ao escrever sobre morte, educação, tristeza e experiência, Montaigne – um pensador humanista – inaugura um gesto radical para seu tempo: pensar a partir de si, sem dogmas. Apenas com curiosidade e honestidade.
Erich Auerbach, famoso lólogo alemão, introduz o livro armando que “o talento de Montaigne consiste em sua capacidade de desmascaramento. Ele diz as coisas mais concretas de modo extremamente subjetivo.”
A Marca na Parede e Outros Contos
por Virginia Woolf – tradução: Leonardo Fróes
A marca na parede e outros contos, de Virginia Woolf, reúne alguns dos textos mais emblemáticos da autora e funciona como uma porta de entrada precisa para seu universo literário. Escritos entre 1917 e 1941, os contos capturam o espírito de um mundo em transição, marcado pelas rupturas do período entre guerras.
Através de impressões do seu cotidiano, investigações do sentido e forma dos auxos de consciência e críticas sociais de gênero. Woolf escreve contos breves, mas densos e nos proporciona uma leitura delicada, inquieta e profundamente moderna.




