Quanto ainda existe para olhar?
De todos os temas que fazem minhas filhas virarem os olhos e dizerem “lá vem ela de novo com a mini TED Talk sobre como era melhor antes”, talvez este seja o que mais me angustie: o excesso de curadoria e de certezas rápidas do mundo de hoje. Tento maneirar no saudosismo quando conto como era navegar pelas ruas de São Paulo com o Guia Quatro Rodas, o trabalho — e o prazer — de gravar uma fita cassete com as músicas favoritas ou o risco de chegar a uma cidade nova e entrar em um restaurante sem reserva, avaliação ou recomendação.
Algoritmos, comunidades de afinidade, repertórios profissionais, referências culturais. Hoje, um mapa nos diz onde estamos. Uma busca encontra o restaurante. Uma plataforma escolhe a próxima música. Outra sugere o próximo livro. Uma pergunta gera resposta em segundos. Até nossas próprias escolhas ajudam a produzir um mundo cada vez mais personalizado e organizado em torno daquilo que já conhecemos, desejamos ou demonstramos querer conhecer.
Não quero dizer que era melhor antes. Certamente não era. Mas talvez alguma coisa tenha mudado na nossa relação com aquilo que não conhecemos.
Se antigamente uma das dificuldades era encontrar informação, talvez o desafio atual seja escapar da informação que nos encontra. Os sistemas de recomendação aprendem aquilo de que gostamos, os feeds reforçam nossos interesses, seguimos pessoas parecidas conosco, frequentamos determinadas comunidades e, pouco a pouco, recebemos uma versão do mundo que parece vasta, mas que pode ser surpreendentemente estreita. E diante da quantidade praticamente infinita de informação disponível, filtros e curadorias são evidentemente necessários. Mas o que acontece quando esquecemos que são filtros e o recorte do mundo se configura como o mundo inteiro?
É nesse espaço, entre o mundo que chega até nós e aquele que permanece fora do nosso campo de visão, que a curiosidade ganha uma importância particular.
Ser curioso talvez não seja apenas querer saber mais. Talvez seja também criar condições para encontrar aquilo que ainda não sabemos que nos interessa.
A curiosidade, nesse sentido, pode ter o papel crucial de romper a curadoria automática da realidade. E não como voracidade por informação — abrir vinte abas, consumir notícias, acumular referências —, e sim como disposição para encontrar algo genuinamente novo, estranho até. Ler sobre algo que, a princípio, não nos interessa. Ou não escolheríamos. Conversar com quem pensa a partir de outras referências. Entrar numa exposição sem saber nada sobre o artista. Seguir uma pergunta sem saber se ela será “útil”. Perder-se pelas ruas num passeio sem aplicativo de navegação.
Em A Field Guide to Getting Lost, Rebecca Solnit explora o valor de não saber exatamente onde estamos ou aonde uma experiência irá nos levar. Perder-se, ali, não é simplesmente estar sem direção. É permitir que o desconhecido tenha alguma participação no caminho.
Mapas diminuem nossas chances de errar uma rua. Buscas nos levam diretamente à resposta. Recomendações reduzem a distância entre um gosto e o próximo. Há um enorme valor nisso: economizamos tempo, encontramos o que precisamos, navegamos por uma abundância que seria impossível percorrer sozinhos. O que ganhamos em eficiência, porém, às vezes perdemos a possibilidade de encontrar algo novo.
Tudo aquilo que forma nosso repertório inevitavelmente estabelece também suas fronteiras.
Mas podemos escolher não nos limitar a elas. Quanto mais o mundo aprende sobre aquilo já sabe que gostamos, mais importante talvez seja procurar aquilo que ele jamais escolheria por nós. Um livro estranho. Uma conversa improvável. Uma pergunta aparentemente inútil. Um caminho que não estava no roteiro. Um restaurante que não foi recomendado.
Ser curioso talvez seja menos acumular respostas e mais ampliar o repertório de perguntas e nossa superfície de contato com o não familiar. Afinal, qualquer versão do mundo que conseguimos enxergar será sempre menor do que o mundo em sua totalidade.
No fim, tento explicar às minhas filhas que a questão não é o Guia Quatro Rodas versus o Waze. Ou o Spotify versus a fita cassete. É o que acontece com nossa relação com o desconhecido quando cada vez mais coisas são antecipadas, recomendadas e respondidas para nós. Não desejo que elas recuperem as dificuldades do passado, mas me preocupo que preservem, no presente, algum espaço para o acaso, o desvio e o não saber. Acredito que cultivar a curiosidade seja justamente não dizer a nós mesmos o que ver, mas continuar percebendo o quanto ainda existe para olhar.
Finalizo com um poema de Orides Fontela que traduz muito bem esse exercício:
“Abrir os olhos.
Abri-los
como da primeira vez
– e a primeira vez
é sempre.”




