Estar junto: o poder do pertencimento Estar junto: o poder do pertencimento

Estar junto: o poder do pertencimento

abril | 26 – Blog Literat

Tem uma sensação que a gente reconhece na hora, mas nem sempre sabe nomear.
Ela aparece sem aviso: quando uma conversa flui sem esforço, quando o silêncio não incomoda, quando estamos em um lugar onde não precisamos nos ajustar o tempo todo. Um lugar onde cabemos.

Pertencimento.

Não se trata apenas de fazer parte de algo de forma institucional ou objetiva. Pertencer é mais sutil do que isso. É quase como um insight: perceber que aquele espaço, aquelas pessoas ou aquele momento dizem algo sobre quem somos.

No livro O perigo de estar lúcida, de Rosa Montero, a autora fala sobre o que chama de “momento oceânico”. Ela retoma um conceito citado por Romain Rolland para descrever um instante em que nos percebemos integrados a algo maior — ao mundo, à vida, ao todo.

Ao observar uma baleia em alto-mar, ela escreve:
“Nada separa sua consciência do restante do Todo. Você é o sol que arde no horizonte (…) você é como a gota d’água que se une ao oceano”.

O pertencimento também pode emergir na relação com um lugar, uma cidade – uma dimensão visível na literatura. Em Ulysses de James Joyce, Dublin deixa de ser cenário e se torna parte ativa da narrativa, acompanhando Leopold Bloom na sua caminhada pela cidade. E na relação com essa cidade — seus ritmos, ruas e detalhes cotidianos — se constrói uma forma de conexão que não depende necessariamente de vínculos diretos, mas de uma presença contínua no espaço vivido.  

Em Mrs Dalloway, Virginia Woolf também explora com profundidade essa dimensão do pertencimento. Clarissa encontra em Londres uma forma de conexão: ao caminhar pela cidade, ela se reconhece parte daquele movimento, daquele ritmo coletivo e expressa isso ao dizer:

“Por ter vivido em Westminster — há quantos anos agora? mais de vinte —, sente-se, mesmo no meio do trânsito… uma certa quietude, uma espécie de solenidade.”

Há também um pertencimento que não depende do externo, mas de um estado de presença. Um lugar em nós onde nos sentimos alinhados, conectados à nossa própria essência. Quando acessamos esse estado, deixamos de apenas reagir às situações. Criamos espaço interno — e, a partir dele, conseguimos lidar com o que nos atravessa com mais estabilidade.

É nesse ponto que a relação com o outro também se transforma. A conexão deixa de ser tentativa ou esforço e passa a partir de um lugar mais verdadeiro — o que sustenta vínculos mais consistentes ao longo do tempo.

O pertencimento, então, se desloca: pode existir tanto no encontro com o outro quanto na forma como habitamos o mundo.

Saúde social: um objetivo global

Apesar de — ou talvez justamente por — vivermos em um mundo hiperconectado, essa experiência tem se tornado cada vez mais escassa. A solidão cresce, mesmo em meio ao excesso de interações.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, 1 a cada 6 pessoas relata sentir solidão. 

Mas pertencimento não se resume a não estar só.
O que essa realidade expõe vai além da companhia: revela a ausência de conexões significativas — espaços em que possamos, de fato, ser reconhecidos e nos reconhecer.

Existe uma dimensão da saúde determinada pela qualidade dos vínculos: a saúde social. Ela impacta diretamente a forma como vivemos, convivemos e produzimos juntos. Não por acaso, esse tema vem ganhando centralidade nas discussões da Organização Mundial da Saúde sobre bem-estar e desenvolvimento humano.

Pertencemos quando estamos com pessoas que compartilham valores, referências, visões de mundo. Não precisam ser iguais a nós. Mas algo precisa ressoar. E, quando ressoa, também transforma a maneira como vemos o mundo e a nós mesmos.

Produzir juntos

Essa realidade também atravessa o mundo corporativo.

Em uma rotina cada vez mais mediada por interações digitais e agentes virtuais, a importância das relações se torna ainda mais evidente. No artigo Entre estar e permanecer, aprofundamos essa reflexão.

Quando existe pertencimento, algo muda. A conversa ganha profundidade, o tempo parece desacelerar e a motivação deixa de ser apenas individual.
O que antes era interesse próprio se expande e se sustenta: torna-se troca, presença e criação compartilhada.

Equipes que compartilham vínculos, que se encontram presencialmente e constroem relações para além da função tendem a ser mais engajadas, mais criativas e mais sustentáveis ao longo do tempo. A 11ª edição da meta-análise Q12 da Gallup — uma das maiores já realizadas, com dados de mais de 100 mil equipes — reforça essa relação ao mostrar como o engajamento impacta diretamente a performance.

E, quase sem perceber, a cumplicidade acontece. Na construção de um espaço onde há reconhecimento, confiança e parceria. Um espaço em que podemos ser inteiros, mesmo sendo parte.

O pertencimento é feito de multiplicidade e acolhimento — valores que motivaram a criação do Literat. Um lugar em que a curiosidade se move e nos move, com livre acesso para acolher a diversidade, inspirar muitas maneiras de pensar e criar múltiplas formas de fazer.

#EstanteLiterat

Se quiser pensar mais sobre pertencer…

 

O perigo de estar lúcida

Rosa Montero

Rosa Montero investiga as relações entre criação e instabilidade emocional, entrelaçando memórias pessoais, ciência e trajetórias de artistas. Ao percorrer estados de intensidade, fragilidade e imaginação, a autora constrói uma reflexão sobre a mente criativa e sugere que o pertencimento também pode emergir desses momentos em que nos percebemos conectados a algo maior — a nós mesmos, ao outro e ao mundo.

 

Ulysses

James Joyce

A narrativa acompanha um único dia na vida de Leopold Bloom pelas ruas de Dublin, onde o cotidiano ganha profundidade e a cidade deixa de ser cenário para se tornar parte da experiência. Entre fluxos de pensamento e encontros aparentemente comuns, o romance revela como o pertencimento pode surgir não apenas nas relações, mas também na forma como habitamos os espaços e nos reconhecemos neles.

 

Mrs Dalloway

Virginia Woolf 

Em Mrs Dalloway, Virginia Woolf narra um único dia na vida de Clarissa Dalloway, que se prepara para oferecer uma festa em Londres. Ao longo desse dia, a história se desdobra por meio de memórias, encontros e fluxos de pensamento e revela como a cidade, com seus sons, movimentos e encontros, se torna um espaço de conexão — quase uma extensão da própria consciência da personagem. Com uma escrita sensível que mistura passado e presente, Woolf transforma o cotidiano em um retrato profundo da vida interior e da experiência urbana.

 

Torto Arado

Itamar Vieira Junior

Ambientado no sertão da Bahia, o romance acompanha a vida de duas irmãs marcadas por um acidente na infância e por uma existência atravessada pelo território, pelo trabalho e pela ancestralidade. O pertencimento aqui é enraizado: está na terra, na história, na memória e nas relações que sustentam uma comunidade inteira. Aqui, identidade e território não se separam — uma existe pela outra.

 

Marta Pipponzi

escritora e fundadora do Literat

Marta Pipponzi